Parte 1
Poesia e Ciência na Arte

 

Cecília Suzuki conseguiu no seu trabalho, tal qual num mandala oriental, a coexistência harmoniosa da arte e da ciência. Até chegar a esse ponto, uma vida de esforço, labuta e inspiração se encaminhou para trazer à contemplação dos homens a beleza misteriosa que subjaz nos seus próprios olhos. Beleza que esta artista muito especial desvenda, cria e recria a partir de uma poética muito própria.

 

No início da vida, Cecília enfrentou as vicissitudes clássicas de uma família de imigrantes japoneses no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial. Seus pais, Naojiro e Ithie Tamaki, tinham chegado de Wakayama até aqui em 1922, para trabalhar na lavoura de algodão, no interior de São Paulo. Vindo depois para a capital, passaram a ter como cenário social a luta pela sobrevivência na pequena colônia nipônica entre a Freguesia do Ó e Itaberaba, as ruas de terra e o raro aparecimento da jardineira, única condução.

 

Na casa de chão de tijolos, com fogão a lenha e sem banheiro interno nem água encanada, a família conseguia se abastecer através de um poço puxando um balde por uma corda de dezoito metros, trançada por Naojiro com as fibras de um arbusto. Família grande, de oito irmãos homens e só Cecília de mulher, a caçulinha.

 

Quando chegou à idade escolar, o único estabelecimento de ensino do bairro não tinha vaga para ela. Assim, limitava-se a caminhar a pé até a Vila Brasilândia, onde se ensinava japonês, a língua falada em casa. Aliás, esse estado de verdadeira apartação dos colonos japoneses na época tinha condicionantes mais complexos: originalmente súditos de uma potência inimiga na Segunda Guerra, os nipônicos eram vistos com desconfiança. Era proibido falar a língua pátria em público, difícil conseguir crédito nos armazéns e vagas nas escolas.

 

Mais grave ainda: para registrar seus filhos nascidos sob a bandeira verde-amarela, os imigrantes tinham que lhes dar prenomes cristãos e ibéricos. Só quando nossa artista completou nove anos é que seu pai a registrou, trazendo então para casa, para a menina chamada Massae Tamaki, a novidade assustadora e engraçada: "Agora você se chama 'Chichíria'...".

 

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Texto retirado do livro "Cecília Suzuki - Litografias", publicação da Allergan e Estúdio Z no Outono de 2001.