Parte 2
Tradição e Sensibilidade

 

É claro que os filhos do Japão continuaram falando a única língua que possuíam e trabalhando até conseguir dinheiro e crédito. Aos poucos, foram superando os preconceitos e sendo aceitos, passando a falar português e até esquecendo o idioma pátrio. Mas em Cecília Massae Tamaki ficou, dos anos de infância, uma marca não tão expressa e visível, porém profunda e indelével: a sensibilidade específica da cultura da Terra do Sol Nascente.

 

Essa sensibilidade foi forjada tanto nas dobraduras de papel que ela fazia nos intervalos das aulas de japonês quanto nas gincanas infantis dos meses de abril, em que se comemorava o aniversário do imperador. E principalmente nas habilidades rotineiras que a mãe e o pai lhe passavam, junto com as suas histórias e tradições. Ambos eram descendentes de samurais e haviam se casado seguindo o costume familiar de uniões em que os parceiros nem mesmo se conheciam antes.

 

Mas a personalidade de Cecília, principalmente no seu aspecto guerreiro, se plasmou também na luta para se afirmar como a caçulinha de uma família de homens, numa tradição patriarcal. Cecília tinha que ajudar a mãe nas lides domésticas, subir em um caixotinho para lavar roupa, carregar sacolas com compras pelas ladeiras de terra e, ao mesmo tempo, mostrar que era capaz de fazer tudo o que os meninos faziam, como confeccionar e jogar piões, empinar pipas, usar o estilingue com maestria para caçar passarinhos e rachar a cabeça dos moleques...

 

A mudança da família para a Pompéia, quando Cecília tinha nove anos e meio, representou uma melhoria na situação econômica. Logo depois, porém, os Tamaki tiveram que amargar a dor da morte prematura do pai Naojiro.

 

Os irmãos mais velhos foram obrigados a trabalhar mais para sustentar a família, mas Cecília passou a frequentar o Grupo Escolar Miss Brown, aprendendo o bê-á-bá em português, tricô, crochê e as primeiras contas. Uma professora inesquecível, dona Beatriz Castelo Branco, ensinou-lhe os costumes e a etiqueta brasileiros. Equipada com tais ensinamentos, nossa artista foi em frente, passando a se desincumbir das tarefas do ginásio depois de mudar-se para Santana.

 

Entretanto, Cecília Tamaki manteve sua altivez característica. Em plena adolescência, essa postura provocou um incidente quando ela frequentava um clube japonês no Tucuruvi. Ali, num lugar em que as tradições não admitiam que mulher, muito menos jovem, levantasse a voz para nada diante dos homens, Cecília contestou com veemência a opinião de um deputado que proferia uma palestra para os associados. Essa atitude de expressar sem medo suas opiniões lhe valeu o afastamento do clube. Por essa e outras razões, Cecília passou a conviver menos com a colônia japonesa.

 

Seus irmãos só voltaram a estudar nos cursos supletivos. Ela, porém, prosseguiu e, no segundo grau, teve o primeiro contato com as ciências biológicas de uma forma mais estruturada. Tudo indicava que haveria uma médica na família. No entanto, quando chegou ao pré-vestibular, matriculou-se num cursinho para Engenharia, única forma de se preparar para o vestibular de Arquitetura. Como era pouco comum mulheres seguirem carreiras consideradas "masculinas", seus irmãos pensavam que estivesse fazendo cursinho para Medicina, jamais para Engenharia. Em 1963, surpreendeu todo mundo ao entrar na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie.

 

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Texto retirado do livro "Cecília Suzuki - Litografias", publicação da Allergan e Estúdio Z no Outono de 2001.