Parte 4
Universo da Oftalmologia

 

Esse período de plena dedicação às atividades domésticas trouxe, paradoxalmente, um contato crescente com uma das matrizes essenciais da arte de Cecília: a ciência médica. Depois de algum tempo, ela passou a ter uma rotina de cuidar de doentes: numa família unida, era natural que os enfermos se sentissem mais seguros na presença do parente médico, Hisashi. Cecília trouxe para sua casa, com problemas de saúde, a mãe, os sogros, seu irmão e quem mais precisou de conforto e cuidados numa enfermidade. E tratou de todo mundo com boa vontade e bom humor.

 

A convivência com o Doutor Suzuki trouxe elementos ainda mais ricos de conhecimento médico para Cecília. Primeiro, porque ela acompanhava o marido em quase todos os congressos de que ele participava, no Brasil e no exterior. E não eram poucos, pois Hisashi teve uma carreira intensa e brilhante, atingindo a livre-locência em Oftalmologia na Universidade de São Paulo em 1982. Durante os conclaves, nossa artista se recusava a posar de acompanhante. Preferia assistir às sessões científicas e aproveitá-las ao máximo.

 

Em segundo lugar, Cecília participou como auxiliar de uma atividade importantíssima de Hisashi: o fabrico artesanal de instrumentos cirúrgicos. Até o final da década de 60, não se faziam cirurgias internas nos olhos, havia um verdadeiro tabu em relação a essa atitude invasiva. As cirurgias de retina convencionais começaram a ser feitas em Boston, EUA, nesse final de década, pelo belga Charles Schepens.

 

Mas a intervenção direta na cavidade ocular só passou a existir no início dos 70, graças ao alemão Robert Machemer, residente em Miami, na clínica Bascom-Palmer. Até o final desse período, a cirurgia oftálmica caminhou lentamente, e por isso não havia também a oferta regular de instrumentos para essas delicadas intervenções cirúrgicas. Hisashi passou a construir em casa, com sua paciência oriental, os primeiros e sutis instrumentos usados no Brasil nas suas primeiras cirurgias de olhos. Construiu um pequeno vitreófago, para aspiração e corte, microtesouras e instrumentos para coagulação. Às vezes inventava objetos para cada cirurgia particular, como uma pinça específica criada para tirar um chumbinho do olho de uma criança.

 

A família acompanhava tudo de perto nas noites em claro que o cirurgião passava em casa para criar sua tecnologia. A filha mais velha fazia tricô, os mais novos ficavam na expectativa das invenções do pai. Cecília se lembra de que, no início desse trabalho, o doutor Suzuki sentia falta de peças de pequeno tamanho para executar tarefas mais delicadas. Ela chegou a passar horas numa loja de relojoeiro, fuçando em todas as gavetas e comprando várias pecinhas que pudessem servir de ajuda ao marido.

 

Os filhos cresceram participando dessa rotina. Mais tarde, eles se formariam na Universidade de São Paulo: Cássia Regina e Ricardo se tomariam médicos oftalmologistas e Luís Cláudio, cirurgião dentista.

 

Integrada assim ao universo oftalmológico, Cecília tornou-se uma observadora e conhecedora leiga das doenças do olho humano. Seus próprios olhos e sua especial sensibilidade a alertaram para o mistério ; a beleza que poderia haver naquelas patologias.

 

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Texto retirado do livro "Cecília Suzuki - Litografias", publicação da Allergan e Estúdio Z no Outono de 2001.