Parte 6
Arte ou Ciência

 

O processo de juntar arte e ciência estava desencadeado. No segundo semestre de 1979 seria aperfeiçoado, com uma nova coincidência: junto com Habuba, Cecília fez uma visita ao estúdio de litografia Ymagos, onde o proprietário, Élsio Motta, deu-lhe a oportunidade de conhecer a técnica. Quando lhe ofereceram uma pedra litográfica para desenhar, ela percebeu que, inexplicavelmente, havia slides de patologias oculares na sua bolsa; tomou do instrumento e de uma pedra (sem saber muito bem por quê, foi logo pedindo ao responsável pelo estúdio uma pedra grande, quando todo mundo começa com as pequenas) e começou a riscá-la. Copiou o slide da patologia diretamente, elaborou-o e passou a tirar as cópias que a tornariam famosa nos recintos da oftalmologia em tantos lugares do mundo. Sebastião Teixeira, o "Tião" da Ymagos, foi um dos impressores que, desde o início, teve grande participação nesse processo.

 

Seriam expressões de arte ou de ciência, esses trabalhos? Cecília Suzuki chegou a ter essa dúvida, mas sem vacilar resolveu mandá-los para exposições oficiais, com o intuito de saber a opinião dos críticos. Nesse mesmo ano de 1979, seus trabalhos foram aceitos, exibidos e premiados em onze exposições, em São Paulo, Rio de Janeiro e, last but not least, acolhidos na Biennale Mondiale des Métiers d'Art, de Lyon, França.

 

Era apenas o começo das muitas dezenas de exposições em todo o Brasil, além de Japão, Estados Unidos, França, Itália e Chile. Em muitas delas, Cecília ganhou prêmios importantes, como a medalha de bronze no Trofeo Internazionale Medusa Aurea de 1983, da Academia Internacional de Arte Moderna de Roma, Itália, e a medalha de ouro e um certificado de Honra ao Mérito dos críticos do Museu Georges Pompidou, na exposição do Centro Internacional de Arte Contemporânea de Paris, em 1984. Participou também de outras exposições de prestígio, como a da Project-Art Gallery. da Universidade de Iowa, nos EUA, em 1996, por incentivo de Bill Mathers, professor de Oftalmologia daquela escola.

 

Dissiparam-se quaisquer dúvidas sobre a natureza artística de seu trabalho, vista pela grande maioria dos críticos e do público como abstrata. Entretanto, já no seminário de 1979, os oftalmologistas, ao olhar o cartaz, viram imediatamente tratar-se de uma patologia ocular nada abstrata. Tratava-se, na verdade, de uma forma particular e rica de documentação científica.

 

Com espanto e admiração, os cientistas dos olhos, nos congressos em que Cecília passou a participar, viram algo absolutamente novo e original: manifestações estéticas mais realistas, como desenhos de cirurgias enriquecidos de cor e luz, e abstrações feitas a partir do concreto dos olhos doentes, transformados em elementos passíveis de ser introduzidos na formação de imagens para as litografias.

 

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Texto retirado do livro "Cecília Suzuki - Litografias", publicação da Allergan e Estúdio Z no Outono de 2001.